Uma lápide funerária de Balsa, pouco conhecida

 

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Na revista Ficheiro Epigráfico nº 29,de 1988, José de Encarnação publica uma lápide com o título "Ara funerária de Tavira" (nº 133 do catálogo dessa publicação) .

É infelizmente, um título errado e enganador. A ara não foi encontrada em Tavira mas sim na Quinta da Torre de Aires (Luz) e o sítio corresponde à cidade romana de Balsa.

Tratava-se de uma lápide inédita, cujo paradeiro era então desconhecido.

O seu estudo baseou-se numa fotografia da colecção de João Bairrão Oleiro, tirada em 1948. A fotografia foi tirada no casario da Quinta da Torre de Aires, onde a lápide se encontrava "no pátio empedrado junto a uma casa térrea da quinta."

 

Na Addenda et corrigenda do Ficheiro Epigráfico nº 40,de 1992, José d'Encarnação descreve a descoberta da peça num antiquário de Belamandil, em 1990, e a sua acção no sentido dela ser adquirida pelo Estado, de modo a ser incluída na colecção epigráfica do museu arqueológico de Faro. Procede então ao estudo do original, mantendo a leitura anterior baseada na fotografia.

O destino da lápide perdeu-se desde então, tendo sido "reencontrada" recentemente num corredor da Delegação Regional da Cultura de Faro, por quem tinha sido adquirida no seguimento dos trâmites referidos e onde permaneceu ao longo destes anos.

 

As fotografias que agora apresentamos têm o interesse de serem as primeiras a serem publicadas, desde a referida foto de 1948

 

A lápide é curiosa e merece destaque por várias razões, para além de ser de leitura problemática e de interpretação muito condicional:

·      Revela três nomes gregos femininos inéditos

·      Refere explicitamente a condição de irmãs da falecida, por parte das dedicantes

·      Combina três nomes gregos e um latino na mesma geração familiar

·      É escultoricamente muito semelhante a outra, achada em Faro/Ossonoba (Catúrica Prima, IRCP 18), provindo ambas, segundo José d'Encarnação, da mesma oficina

 

Transcreve-se, com a devida vénia, parte do texto deste autor, o que não substitui a leitura do original:

 

José d'Encarnação, "Ara funerária de Tavira", nº 133, Ficheiro Epigráfico, 29, 1988

 

DMS

SYCECALE

V ANO M[...]

SOROR[...]

TRICISM[...]

[...]SALCEA[...]

ET VEGET

"O texto parece conter o epitáfio de Sycecale. Este antropónimo, de que não encontrei paralelos, poderá ter sido formado a partir de dois vocábulos gregos: ψυχή+ χαλή, o que lhe outorgaria um significado curioso, «a da bela psique».

Na [terceira linha] haveria lugar para a indicação da idade. A reconstituição V(ixit) ANO (uno) M(ensibus) [V] (parece notar-se o vértice superior esquerdo do V) não seria, por isso, despicienda.

O monumento terá sido dedicado por familiares, cujos nomes e grau de parentesco estariam mencionados nas linhas 4 a 7. Desta sorte, algo como SORORES, as irmãs, poderia estar na [quarta linha], seguindo-lhes os respectivos nomes.

Para a primeira, TRICISMA seria possível, porque, embora seja também ele um antropónimo sem paralelos, poderia ter sido formado a partir do vocábulo grego θρίξ, τριχός «cabelo», com o sufixo substantivel -isma, outorgando-lhe, por isso, o sinónimo de «cabeluda», «de farta cabeleira». Na [6ª linha], deve faltar uma letra que, aparentemente, só poderá ser P, na medida em que uma vogal obrigaria a dobrar a consoante e não há espaço.

PSALCEAS ou PSALCEADES, apesar de não documentados, seriam hipóteses a considerar, eventualmente relacionadas com o universo dos vocábulos ligados ao canto. Do último antropónimo não parece existir a letra final; mas, se considerarmos o termo SORORES a identificar todas as dedicantes, há que ver aí o feminino VEGETA, um cognomen de origem latina.

Por consequência, a nossa proposta de reconstituição é, sob reservas, a seguinte:

D(is) M(anibus) S(acrum)

SYCECALE

V(ixit) ANO M(ensibus) [V (quinque)]

SOROR[ES]

TRICISM[A]

[P]SALCEA[D/ES?] ET VEGET(A)

Consagrado aos deuses Manes, Psiquécale viveu um ano e cinco meses. As irmãs, Triquisma, Salquéade (?) e Vegeta."

 

A lápide foi encontrada em 1948 fora do seu lugar original.

O casario da Quinta da Torre de Aires ocupa a plataforma de uma pequena acrópole sobre a ria, intensamente edificada na época romana, sendo possível reconhecer em várias fotografias aéreas vestígios de uma muralha ou grosso muro de suporte que enquadrava o espaço. Há notícias de numerosos achados, destacando-se parte de uma pedra de altar, tubagens de água corrente, elementos arquitectónicos, materiais de construção e poderosos alicerces.

Estácio da Veiga descobriu aí, em 1866, dois cipos (aparentemente enterrados in sito) com duas inscrições decisivas para a identificação de Balsa: uma homenagem cívica a Tito Rutilio Tuscilliano (e à memória do seu avô Tito Mânlio Marcial) por parte de um grupo de balsenses (IRCP 80) e a um duúnviro de Balsa, Tito Mânlio Faustino (IRCP 79). Outra lápide aí descoberta é dedicada a uma divindade augusta, por Speratus, dispensator balsense (IRCP 74).

Situar-se-ia aqui, sem dúvida, o foro cívico da cidade (2.1 na figura). A cerca de 300 metros para Norte iniciava-se a grande necrópole da Torre de Aires (1.1 na figura), uma das duas maiores conhecidas em Balsa.

A lápide de SYCECALE terá sido trazida dessa necrópole durante a 1ª metade do séc. XX, conhecendo-se várias outras da mesma época e local.

 

 

Detalhe da reconstituição urbana de Balsa

www.arkeotavira.com/balsa/

 

Casario da Quinta da Torre de Aires

Antiga acrópole e fórum romano de Balsa

(Foto de Lúcio Alves)

 

Bibliografia

Povos balsenses, Estácio da Veiga, Liv. cathólica, Lisboa, 1866, http://www.arqueotavira.com/Estudos/Povos%20Balsenses.pdf

IRCP (Inscrições Romanas do Conventus Pacensis), José d'Encarnação, Univ. de Coimbra, Coimbra, 1984

FE (Ficheiro Epigráfico), nº40, Coimbra, 1988

Addenda et corrigenda do Ficheiro Epigráfico nº 40, Coimbra, 1992

Balsa, cidade perdida, Luís Fraga da Silva, C.A.T., Tavira, 2005, http://www.arqueotavira.com/balsa/